24 de ago de 2013

no quarto 17 - parte III.

as dores estava cada vez mais intensas e eu comecei a sentir necessidade de vocalizar.
sim, vocalizar. não é gritar de dor, e sim dizer um "aaaaahhh" quando a coisa apertava. havia lido que isso ajuda a relaxar e o corpo se entrega à dor. pois é isso que devemos fazer. não lutar contra ela, caminhar junto.
relaxar o maxilar, os ombros, soltar um ar do fundo da garganta. às vezes, ele até sai meio gutural.

meu bebê ainda estava "alto", apesar dos 7 centímetros. normal isso acontecer.
então lá fui eu rebolar em cima de uma bola de pilates.
a posição era boa, era relaxante. o único incômodo era o frio nas pernas, pois eu ficava sem a parte de baixo da roupa por causa da perda de líquido constante. a renata jogou uma coberta do hospital em mim, pra aquecer as pernas e os pés.

sentada em cima da bola, usando a camisola do hospital como "colete protetor de bunda de fora", uma cobertinha azul nas pernas. a cada contração, vocalizava e rebolava.
foi assim que tomei meu café da manhã: uns pedaços de melão.



***

eu sempre paro e fico pensando em tudo que aconteceu naquela manhã.
as coisas ficaram bem difusas na minha mente.
nessa hora eu já não lembro mais das coisas numa ordem cronológica. são flashes que eu me esforço pra dar um sentido.
imaginem o nível de ocitocina pra mexer tanto com minha memória...

lembro bem de, de repente, baterem na porta do meu quarto, me chamando pra fazer uma ultrassonografia. as dores estavam bem intensas e eu só conseguir olhar pra renata e esboçar um "o quê??". estava tão aérea que, quando dei por mim, já estava sentadinha na cadeira de rodas. isso mesmo: CADEIRA DE RODAS. minha bunda mal cabia nela.

fui sendo levada corredores abaixo.
eles eram abertos, e eu senti um frio de lascar. dores. frio. complicado.
me preocupei em como a enfermeira me levaria de volta pro quarto naquela cadeira de rodas, pois o caminho oposto era apenas subidas e subidas.
o que aconteceu na salinha de ultrassom foi surreal.
3 mulheres falando alegremente. me fizeram deitar de barriga pra cima. pra quem não sabe, essa é a pior posição do mundo pra quem está tendo contrações. me pediram meus exames anteriores. "tá lá no quarto..." fazem cara de afff. a renata vai correndo buscar. enquanto ela não volta, perguntas genéricas. nome, idade, data de nascimento, quem é o médico, quantas semanas. quando respondo 40, é aquele forfé: COMO ASSIM 40 SEMANAS? POR QUE VOCÊ AINDA ESTÁ AQUI? POR QUE NÃO FAZEM A CESÁRIA? AI QUE ABSURDO!. junto forças e digo que vai ser parto normal. que eu escolhi, que eu quero. que cesária só se for necessário.
ai que corajosa, eu também quis normal mas não consegui...
uma das moças ainda reclamava baixinho por que ultrassom com 40 semanas, meu deus?. juntei mais forças e disse que esse exame deveria ter sido feito 14 horas antes, quando eu internei, estava de bolsa rota e o exame era pra ver o líquido, façam logo esse exame, pelo amor de deus?
renata chega com todas as ultrassonografias que havia feito durante a gestação. olham uma por uma. fazem a conta e confirmam: é... você tá com 40 semanas mesmo!
jura? não bastava ter acreditado em mim?

tudo acaba, volto pra cadeira de rodas.
agora, tava ca-gan-do pra quem iria me carregar ladeirinhas acima. enrolei a cobertinha azul nas pernas e fechei os olhos. foram 3 pessoas me empurrando até o quarto.

claro que depois disso, o trabalho de parto deu uma estacionada.
então dá-lhe chá, conversa agradável com a renata, a sala quentinha, meia-luz, minhas músicas preferidas.
quando tudo parecia voltar ao normal, batem na porta novamente.
mais um cardiotoco.

ah, não! aí já é demais.
peço pra não ser feito. não quero. não tenho condições.
apesar de dessa vez trazerem a máquina até mim, não dava. tinha acabado de fazer um ultrassom, tava tudo bem.
enfermeiras se olham, cochicham, chamam o plantonista.
ele chega bufando, rude, grosso, apenas diz que eu devo fazer sim, que é pro meu bem e pro bem do bebê.
combinamos: apenas 5 minutos de exame. depois chega, não faria mais.

mais um toque: ainda 7 cm.
apesar das dores intensas e contrações praticamente se intervalos, sem progresso.
apesar dos esforços, bebê ainda alto.
apesar de todo o tempo que havia passado, lá dentro continuava igual.

(não tenho noção do horário que tudo isso aconteceu, mas foi ainda pela manhã)

fui invadida por um desespero sem fim. trabalho de parto que, até então estava sendo delicioso, começou a me machucar de verdade. física e psicologicamente.
como assim dilatar 7 centímetros em 8 horas e estacionar sem mais nem menos? ok, tive intercorrências, tive que lidar com protocolos chatíssimos de hospital, com interrupções que desconcentravam, mas eu me sentia tão pronta, tão capaz...

renata sugere irmos caminhar.
os corredores do hospital tem barras, o que é ótimo pra ficar de cócoras durante uma contração. antes de sair ela diz: "não olha pra ninguém, não liga pra ninguém. olha pra sua barriga, mentaliza seu bebê."
entendi essas palavras quando a primeira pessoa passou por mim.

atrás do meu quarto havia um parquinho pra crianças. não entendi muito bem o que ele fazia ali, mas foi bom tomar um solzinho. a cozinha ficava bem em frente, sentia o cheiro do almoço. quando a dor chegava, eu me pendurava na barra e acocorava. gemia alto de dor. ela era forte. durava um bom tempo.

subimos e descemos escadas. eu segurava o choro.
horas antes, eu tinha comentado com a renata em como as dores, apesar de fortinhas, eram prazerosas. a onda de dor vinha devagarinho, começando no baixo ventre, passando pelas costas, descendo pela bacia. ia aumentando, aumentando e quando eu pensava "ui, agora vai doer!", ela ia embora, devagarinho, do mesmo jeito que chegava. nessa hora, em que ela ia diminuindo, meu corpo era invadido por uma sensação de prazer.
é clichê, mas a natureza é perfeita.

mas nessa hora, em que eu andava e subia escadas, não era assim.
o "ui, agora vai doer" acontecia. e doía. mesmo. muito. quando ia embora, o prazer ainda estava ali, mas mal podia curti-lo, pois lá vinha outra onda.
eu não tinha descanso.

voltamos pro quarto.
eu já não sabia mais o que fazer, o que pensar.
renata sugere o chuveiro. sim, o chuveiro! o santo chuveiro.

"entra, se enfia debaixo dele. desliga do mundo. pensa em você, na sua trajetória até aqui. pensa no porquê da sua escolha. no que pode estar te bloqueando."

eu precisava encarar minha sombra.