26 de abr de 2010

amor.

no fundo, ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. e isso um lar perplexamente lhe dera. por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. o homem com quem se casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha - com persistência, continuidade e alegria. o que sucedera a ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. assim ela o quisera e o escolhera.

(clarice lispector)