18 de ago de 2013

no quarto 17 - parte I.

na semana que o autran nasceu eu só pensava numa coisa: em como seria ruim se ele nascesse e o moisa não estivesse perto. o combinado era eu avisar assim que sentisse os primeiros sinais, ele pegaria a estrada e viria ao nosso encontro.
todos sabemos que parto é demorado, então daria tempo de sobra.
na semana do nascimento havia um feriado pelas bandas de cá. moisa aproveitou e foi passar uns dias com a gente.

***

na manhã do dia 25/07 eu acordei às 7h30, com uma sensação de molhado lá embaixo.
a primeira coisa que pensei foi: merda, era só o que me faltava! mijar nas calças!!. a segunda coisa que pensei foi que havia dormido a noite inteira, sem levantar pra beber água, ou fazer xixi, ou reclamar de dor, ou me contorcer pra mudar de posição.
me levantei da cama e senti mais águinha saindo. minha bexiga deve estar estourando mesmo, pra sair xixi descontroladamente assim.

sentei na privada, bexiga esvaziada, tudo ok.
quando me levanto, mais água escorrendo pelas pernas. sem cor de xixi, sem cheiro de xixi, sem "textura" de xixi. gente, isso não é xixi!
fico mais um tempo parada, em pé, vendo o líquido sair sem que eu pudesse controlar.
é, minha bolsa estourou!

sorri, soltei gritinhos, dei pulinhos (quase) e fui tomar banho. um banho quente, naquela manhã fria. no chuveiro minha cabeça estava a mil. pensava que lá se foi a possibilidade do autran nascer empelicado, em como o bebê esperou o pai estar perto pra nascer, em como tudo fica mais complicado quando a bolsa estoura antes do trabalho de parto, em organizar todas as informações que tinha coletado nos últimos meses e agir com tranquilidade.

saí do banho, coloquei uma toalha no melhor estilo "fralda", mandei uma mensagem pra renata (doula) e fui dormir.
quando acordei novamente, era hora do almoço. sentia pródromos bem de leve.
já haviam se passado 5 horas desde que a bolsa tinha rompido, contei pro moisa e pra minha irmã mais nova. eles ficaram apreensivos, enquanto eu curtia cada ondinha de dor, fazendo comida, assistindo tv. era ótimo sentir meu corpo trabalhando.
depois do almoço, tirei um mega cochilo até umas 3 da tarde.

bom, 8 horas de bolsa rota. hora de avisar o médico.
liguei pro consultório, ao invés do celular: "oi cecília, é a amanda :) então, minha bolsa estourou hoje de manhã... dá pro dr. me avaliar rapidinho agora?"
a secretária exclamou minha calma, pois geralmente as ~gravidinhas~ correm pro consultório desesperadas...
eu fui tomar outro banho, trocar de roupa, arrumar minha mala e seguir o conselho de ir "pronta" pro consultório.

não me sentia bem naquela movimentação toda.
nem estava em trabalho de parto efetivo ainda... pra que correr?

na salinha aquecida, recebi o primeiro exame de toque de todo meu pré-natal. nenhum centímetro dilatado.
me sentei na frente dele, com minha filha ao lado, meu marido em pé, atrás de mim.

"eu trabalho com medicina baseada em evidência, vou te explicar o que posso e não posso fazer, vou te dar opções do que você pode fazer e, se quiser, te dou minha opinião"
(médico humanizado é outra história, não?)

o "medo" de infecção e a necessidade de um certo monitoramento me fez dizer sim à internação imediata. estava relutante, mas disse sim.
saí do consultório com uma guia de internação, pedido de cardiotoco e ultrassonografia para ver o líquido (guardem esse detalhe!).
não... não era assim que eu queria!
liguei pra renata (doula) avisando o curso das coisas e senti preocupação em sua voz.

estacionada em frente à casa dos meus pais, chorava a decepção de começar tudo errado.
moisa colocava as malas no carro, luana se despedia de mim, enquanto eu via meus planos de parto natural irem correnteza abaixo.
era clássico: internação prematura = cansaço de equipe e parturiente = cesariana.
o próprio médico tinha me aconselhado a só ir pra maternidade com o trabalho de parto bem avançado, "pra ninguém ficar te enchendo o saco".

mas né... vamos lá.
passei por toda a burocracia de plano de saúde, libera isso, libera aquilo, assina aqui e ali e a notícia: não havia apartamento disponível. tinha que ter reservado antes... mas como reservar um quarto num hospital pra um parto normal, keridinha? salva de palmas pras cesáreas eletivas.
a saída foi "fechar" uma enfermaria só pra mim, até que um apartamento ficasse vago.

enquanto esperava, as dores iam e voltavam. sentia o incômodo do líquido. sentia dores nos quadris. sentia tristeza. não queria que fosse assim. não queria.

queria passar os pródromos dormindo em casa, passar para a fase latente no colo do moisa, receber a renata durante a fase ativa, usar e abusar do chuveiro maravilhoso da casa da minha mãe. queria andar pelo quintal, queria que minha filha estivesse perto e visse que trabalho de parto não é só dor e sofrimento. queria usar o contador de contrações do ipad junto com minha família.
mas não, estava sentada na sala de espera da maternidade.

às 17:30 estava instalada no quarto 17.
em frente ao berçário, ao lado do centro cirúrgico.

e nem sinal do trabalho de parto.