17 de mai de 2013

bem-vinda ao mundo, mãe empoderada.

uma vez perguntaram, em um grupo de mães, quais seriam nossos epitáfios antes de ter filhos. eu pensei em milhares, mas minha resposta foi: "eu teria dois: um pra quando minha filha nasceu e outro pra quando eu engravidei novamente".

com a luana, eu fui uma mãezinha típica. aquela que segue todos os conselhos vindos de todos os lados. aquela que não acreditava no próprio instinto. que não acreditava na força do próprio corpo, ou na força do corpo da criança.
dizem que o primeiro filho é um sobrevivente, e é mesmo.
luana sobreviveu à minha inaptidão, desinformação, passividade e inexperiência.
o tempo vai passando e você vê que poderia ter sido diferente, se você tivesse o mínimo de informação.
foi nesse sentido que eu comecei a rever todos os meus passos como mãe, desde o nascimento da minha filha. e constatei: o erro estava no começo, no parto. o resto foi consequência.

luana nasceu através de uma cesariana.
seria eletiva (marcada com antecedência), se ela não tivesse dito "opa! que história é essa? quem manda aqui sou eu!". o parto foi adiantado por algumas horas, o que seria na segunda-feira pela manhã - por conveniência - acabou acontecendo no domingo a noite. luana nasceu linda, saudável, rosadinha, cabeluda, fazendo cara azeda pelo susto e pelo choque de sair do quentinho.
eu? eu estava lá, imóvel, passiva, dopada, tentando entender o que se passava naquele momento, sem nenhuma noção do que viria depois - como minha filha, que tinha acabado de nascer. foi tudo filmado e fotografado. tal qual um evento.
um evento que eu não participei conscientemente. estava ali, mas não estava. os protagonistas (mãe e bebê) à mercê de mãos estéreis. sendo cruel e realista, éramos fantoches.

e esse momento, esse primeiro encontro meu com minha filha, momento que deveria ser nosso, só nosso, eu sinto que me foi tirado.
deixei me levar por medo de encarar o desconhecido, medo da dor, medo de morrer, medo atrás de medo. vítima da cultura do medo? pode-se dizer que sim.
e esse sentimento de ser incapaz me tomou por boa parte da minha maternidade. por isso tomei muitas decisões que não tomaria, se tivesse uma pequena convicção ou confiança em mim mesma.
se tivesse me empoderado...

é por isso que eu quero mudar essa história. é por isso que agora, na segunda gestação, eu estou correndo contra o tempo atrás de um médico que assista meu parto natural. é por isso que agora eu quero ser protagonista do parto do meu filho, que ele nasça como deve nascer: sem intervenções, sem cortes, sem química. com dor, gritos, urros, com os hormônios a flor da pele, delirando na partolândia. e no final, tremer de amor.

eu não sou "louca", nem "vou desistir na primeira contração", não vão "me cortar de qualquer jeito". isso não vai acontecer. eu confio em mim, na minha natureza, na minha fisiologia, no meu psicológico. nesses meses que se passaram, eu devorei tudo a respeito e de repente a leoa dentro de mim acordou.
acreditar que sou perfeitamente capaz de parir meu filho sem intervenção é apenas o primeiro passo pra uma maternidade segura e intensa.

e a luana?
espero que ela me perdoe pela imaturidade dos anos que se passaram.
o lado bom é que ela agora tem uma mãe empoderada, prontinha pra brigar com o mundo pra defendê-la do que for preciso.
:)
(...) a culpa não é sua, é dessa sociedade doente em que a gente vive!
em que a mãe é a pior das pessoas porque se não tiver o obstetra pra "fazer" o parto, o neonatologista pra avaliar o bebê, o pediatra pra acompanhar se tá crescendo saudável, o neuro pra garantir que tá desenvolvendo direito, a fisio pra estimular motricidade, a fono pra ajudar a falar, a nutricionista pra ensinar a comer, a professora pra desfraldar, especialista pra ensinar como tem que colocar pra dormir, a super nanny pra ensinar a colocar limites o bebê não cresce, não anda, não fala, deve virar um vegetal, né?! deve morrer! porque instinto de mãe não conta pra nada!
parece que se ela for deixada sozinha ela simplesmente vai ferrar com a vida do filho! não é à toa que temos uma competição tão grande entre as mães. somos muito cobradas pela sociedade e muito desmerecidas! é difícil de ver porque tem essa camuflagem de "mãe é tudo", mas na prática as mães são muito desmerecidas e vivemos com medo de ter prejudicado nosso próprio bebê.


stheffany nering (com permissão)