16 de ago de 2011

cem anos de solidão II.

então, pensou que gastón não era tão bobo quanto parecia, mas pelo contrário, era um homem de uma firmeza, uma habilidade e uma paciência infinitas, que se propusera a vencer a esposa pelo cansaço da eterna complacência, do nunca lhe dizer não, do simular um assentimento sem limites, deixando-a se enredar em sua própria teia de aranha, até o dia em que não pudesse mais suportar o tédio das ilusões ao alcance das mãos e ela mesma fizesse as malas para voltar à europa. a antiga piedade de aureliano se transformou numa aversão violenta.

(gabriel garcía márquez)

10 de ago de 2011

cem anos de solidão.

comparou-a com a lembrança mais antiga que tinha dela, na tarde em que ele tivera o presságio de que uma panela de sopa fervendo ia cair da mesa, e a encontrou espedaçada. num instante descobriu os arranhões, os vergões, os calos, as úlceras e as cicatrizes que deixara nela mais de meio século de vida cotidiana e comprovou que estes estragos não provocavam nele sequer um sentimento de piedade. fez então um último esforço para procurar no seu coração o lugar onde se haviam apodrecido os afetos e não conseguiu encontrá-lo.

(gabriel garcía márquez)