21 de out de 2009

ser brotinho.

ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais!
ser bortinho é rir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o rídiculo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
ser brotinho é não usar pintura alguma ás vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
é viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a comtemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. é passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo.
ser bortinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês. é dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. é também falar "legal" e "bárbaro" com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. é esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. é aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga.
(...) é telefonar muito estendida no chão. é querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. achar muito bonito um homem muito feio. é fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.
(...) é falar inglês sem saber verbos irregulares. é ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.
é ainda ser brotinho (...) ir sempre ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. é ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do porto e ter dado um vexame modelo grande.
ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausente. (...) amanhecer chorando, anoitecer dançando. é manter o ritmo na melodia dissonante. usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. (...) permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem.
eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. é fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. (...) é policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.
ser brotinho é adorar. adorar o impossível.
ser brotinho é detestar. detestar o possível.
é acordar meio-dia, com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijamas telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina.

(paulo mendes campos)


o texto acima foi tirado do livro "cem melhores crônicas brasileiras". foi escrita no início dos anos 50.
como pode-se ver, pouquíssima coisa mudou até hoje.