eu tinha uns 9 anos, eles 17 ou 18. pra mim, eram adultos. fiquei incomodada com aquela presença intrusa. o que eles queriam? o que eles faziam? não adianta dizer pra crianças de 9 anos que eles eram “estagiários”, porque elas estavam conhecendo aquela palavra naquele dia.
eles faziam anotações, ficavam dias sem aparecer, e quando a gente menos esperava, lá estavam de volta. um deles chegou a dar uma aula de um assunto que eu nem lembro. só lembro que ele mandou pintar no mapa do brasil o estado onde nasci e eu pintei santa catarina achando que era o paraná.
com o passar do tempo, deixei de ficar incomodada e passei a ficar curiosa. queria saber quem eles eram, por que estavam ali.
era pra ser professor? ah, legal.
tem que estudar numa escola só pra professor? hm, que jóia.
um dia, cheguei a acompanhar o que deu aula no caminho de volta pra casa e descobri que ele era praticamente meu vizinho. e que nossos pais eram amigos.
é claro que nem todo mundo agia da mesma forma que eu.
havia os indiferentes, que queriam fazer tudo, menos estudar.
havia os que testavam o tempo todo, sendo muito mais bagunceiros do que o normal.
havia os que queria demarcar território, sendo mais agressivos do que o normal.
havia os que queriam admiração, sendo mais puxa-saco do que o normal.
e um dia eles não voltaram mais. a professora “oficial” deu uma bronca enorme na sala, reclamando do nosso mau comportamento. dizia que sentia vergonha, porque blá, blá, blá. nunca mais vi os estagiários (exceto aquele da aula, porque – como disse – ele era praticamente meu vizinho), mas sempre pensei neles. se eles achavam da gente o mesmo que a professora achava, que éramos preguiçosos e bagunceiros.
nunca imaginei que um dia eu estaria no lugar deles. naquela época – e em muitas outras épocas – eu jamais imaginei ser professora.
jamais imaginei encarar uma sala cheia de gente que quer fazer tudo, menos estudar. que quer testar o tempo todo, que quer demarcar território, que quer admiração. jamais imaginei que teria psicológico pra ser afrontada, questionada ou tratada com indiferença.
e acontece que, há algumas semanas atrás, fui a intrusa numa turma de oitava série. sabe o que eu encontrei?
as carinhas mais adoráveis, os olhinhos mais brilhantes, as pessoinhas mais dispostas e com capacidade.
que eu jamais pude imaginar.

sempre tem os que: fazem chifres, fazem pose de paquita, se escondem, saem gordos (eu)












